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Me Apaixonei

"Me apaixonei do mesmo jeito que alguém cai no sono: gradativamente e de repente, de uma hora para outra." - Hazel Grace


Porque ele tem um rosto de anjo, mas com uma expressão de menino travesso. Sorriso de lado, meio convencido, gargalhada rouca desengonçada, que ilumina o mundo. Corpo forte, com músculos, mas sem exagero, muito longe de ser aqueles caras, modelos ou bombados, ele é apenas um cara normal. Nada de beleza exótica, beleza completamente natural. Ele não é rico nem é um playboy, mas é trabalhador, rala o dia todo e depois estuda a noite. E ainda é o melhor dos alunos. Defeitos? Cabelos, são um desastre, cada corte pior que o outro. Brinca com tudo, tem um humor próprio da idade. Se acha, muito. Tem uns traumas de infância. E é claro, a namorada possessiva.

Quando ele chegou, a primeira coisa que me chamou atenção foi a beleza. Eu já conhecia ele antes, mas como não reparar nas mudanças que uns bons anos não fazem? Eu segui seus passos na sala, li as dificuldades de enxergar no seu rosto, as mesmas que as minhas. E então eu posso ter sugerido a minha amiga que chamasse ele para o nosso grupo. Então, aquela foi a primeira vez que eu ouvi sua voz. E foi horrível, porque ele discordou de tudo o que eu disse. Metido a inteligente, se achando mais do que eu, como ele ousava? Acostumada a comandar, eu não gostei nada daquilo, mas a voz pelo menos era bonita.

Ele foi ficando nosso amigo, mais amigo da minha amiga do que meu, porque não sou muito simpática. Ele me ajudou nos deveres, inteligente, sabia tudo, e Deus sabe como eu odeio precisar de ajuda em estudos. Aos poucos ele foi se aproximando, me irritando, brincando, ganhando intimidade com a gente, principalmente comigo. Ele confiou em mim e me contou como as pessoas se aproximavam dele só pra usufruir da inteligência dele. Desde aquele dia jurei nunca mais precisar dele. Eu estudei e me esforcei ao máximo, o superei diversas vezes e ele foi surpreendido. Começou a me ver como uma igual e não a burra da faculdade particular. Compartilhávamos conhecimentos e, confesso, eu amei essa fase. Quando ele terminou, permitiu uma aproximação ainda maior comigo. Estava triste, mas se divertia comigo.

Boatos surgiram de que a gente era um casal e eu morria tanto de vergonha. E de medo. Eu tinha acabado de sair de um relacionamento conturbado, não queria gostar de ninguém. Então me afastei, me afastei pra me proteger e para ele entender que eu não queria nada dele, que eram só boatos. Eu nunca sonhei em dar em cima dele. E ele? Não gostou muito, eu pude sentir. A gente ainda brincava, se zoava, mas evitávamos todos os pequenos contatos físicos. Tinha acabado a inocência e temíamos que qualquer gesto nosso fosse mal interpretado pelo outro. No fundo eu já era dele há muito tempo, mas entrar em um relacionamento requer fé, autoconfiança, coragem e eu tinha perdido tudo há pouco tempo.

Nesse meio tempo eis que ele volta com a namorada e aí tudo mudou mesmo, o afastamento foi total. Uma ruptura completa. Por mais que nos evitássemos, era palpável antes a atração entre nós, isso levou ele a me esconder por muito tempo a volta. Mas ele mudou muito, de uma hora pra outra, e eu notei. Ele não teve coragem de me contar e em um determinado dia disse como se todo mundo já soubesse. Odiei isso profundamente.

E agora ele está lá com ela, que proíbe que ele se aproxime ainda mais de nós. Ele ainda é meu amigo no mesmo nível, sentimos a atração entre nós todo dia, especialmente quando eu me sento ao lado dele naquele ônibus apertado e apagam as luzes. Nos esforçamos para ocupar o menor lugar possível e não encostar um no outro, ignoramos a eletricidade, mas ainda está lá. Nos evitamos porque sabemos que é impossível. Eu não seria feliz destruindo um namoro e ele.... Bem, eu sinto que ele desgosta do namoro e da sua situação, mas ainda a ama e não quer jogar tudo pro ar, mais uma vez. E eu o admiro por isso, mas enquanto isso, no meu peito, a paixão é completa. Se eu sofro? Não, o amor é liberdade, é querer o bem do outro. E sem perceber eu já falei de amor pensando nele.
Mais do que beleza ou inteligência, eu o amo pelo que ele faz comigo. Ele me desafia, me provoca a ser melhor e me faz questionar minhas atitudes. Ele me faz ver a vida de outro modo, me faz ser mais bondosa, focada, inteligente e calma, ele controla minha impulsividade. Sem saber, só sendo ele mesmo. É impossível fugir disso, improvável que se queira negar esse sentimento que te consome, mas não destrói. É novela, é romance, é um livro ou um filme? Não, é a minha complicada vida, que se desenrola num piscar de olhos.

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